segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O dia sem Nome

Entre a sexta-feira da Paixão e o Domingo de Páscoa existe um dia sem nome. Sábado sem predicados. Phillip Yancey foi quem me chamou a atenção para a existência desse dia que todos evitam comentar. Nem mesmo Mel Gibson, em sua famosa película “A Paixão de Cristo”, falou sobre ele.

Corri para a Bíblia. Pensei: lá devo encontrar algo sobre o sábado sem-nome. Abri em Mateus. Não havia praticamente nada, a não ser que os principais sacerdotes e os fariseus procuraram Pilatos pedindo segurança para o sepulcro. Criam que os discípulos poderiam roubar o corpo espalhando a notícia que Jesus havia ressuscitado. “Ide e guardai o sepulcro como bem vos parecer” (Mt 27.65).

Rapidamente, passei as páginas para os últimos capítulos de Marcos. No 15.47 encontrei Maria Madalena e Maria, mãe de José, ainda na sexta-feira, com os olhos parados sob o túmulo. O verso subseqüente, 16.1, dizia assim: “Passado o sábado...”. Marcos também se cala. O sábado já era passado.

Lucas... Lucas... Lá certamente vou achar algo, porque Lucas é mais detalhista. Abri no capítulo 23, versos 54 a 56 e li: “Era o dia da preparação e começava o sábado. As mulheres que tinham vindo na Galiléia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E no sábado, descansaram, segundo o mandamento”. Nada, a não ser que fizeram o que se fazia no dia do descanso, segundo a religião judaica.

Só me restava ler João. Vigorosamente fui ao encontro do texto. Ali havia apenas o relato que o sepultamento de Jesus teve que ser rápido e às pressas, por causa da “preparação dos judeus” (19.42). O sol estava para se pôr, e então começaria o sábado, no qual nenhum serviço poderia ser feito, segundo a lei dos judeus. Depois de dizer isto, João silencia e abre o próximo versículo falando do primeiro dia da semana, o domingo.

Sábado é silêncio. Nele paira o fracasso, o sentimento de incapacidade, predomina a dor e a saudade, o vazio existencial, o vácuo da alma. Nele, Deus se cala. No sábado, a graça está trancafiada num túmulo, morta sobre uma pedra fria. Quem vive é a lei, manifestando seu poder através do cumprimento ritualístico da inércia sabática.

Quem escreveu sobre o sábado foram os homens que anunciaram a si mesmos como “super-homens”, maiores que os deuses. Os existencialistas Nietzsche e Feuerbach proclamaram: “Deus está morto! Continua morto! E fomos nós que o matamos...” A morte de Deus foi entendida por eles como a exaltação do homem acima de si mesmo. Entendiam que no sábado, o homem enterrou a Deus e tomou as rédeas da história em suas mãos. Pura pretensão humana. É no sábado que os inimigos de Deus se levantam e festejam a suposta vitória.

De certa maneira vivemos o dia sem nome. Embora saibamos, cremos e pregamos que Cristo morreu e ressuscitou, vivemos um tempo entre o já e o ainda não. O Reino já chegou entre nós, mas ainda não na sua plenitude. Segundo Yancey, “a história humana prossegue entre o período da promessa e do cumprimento”. Por isso ainda sofremos com os sons dos tiros na favela da Rocinha, com os assaltos relâmpago nas ruas de Brasília, com a fome que mata a tantos, com a exploração sexual de menores, com o desemprego, com a miséria que desfigura e desmoraliza, com os assaltos nas rodovias brasileiras. Mas, há uma promessa e nela devemos nos apegar.

O cristianismo é a religião da esperança porque o túmulo no domingo se encontrava vazio. Jamais poderemos nos esquecer de que o sábado está findando e o domingo está às portas. O Reino já presente e que manifesta os seus sinais, virá com toda a sua força e beleza. Por isso não podemos nos deixar abater. Ao contrário. Devemos viver e proclamar a Esperança de que Jesus vive, reina e voltará. A sexta pode ser da paixão e o sábado do silêncio. Mas, o domingo é glorioso. Maranatha! Ora, vem Senhor Jesus!

Carlinhos Veiga

Fonte: Site da MPC. Link da matéria.

2 comentários:

Homossexual e Pai disse...

que textointeressante..o sabado sem nome...muito inteligente a reflexão e a forma como ot exto foi escrito,parabens

JOSE J. AZEVEDO disse...

Parabens pelo artigo. Muitos religiosos consideram errado que os cristãos façam do domingo o seu "sábado", que quer dizer descanso. Podemos, pois, descansar não apenas nosso corpo do trabalho semanal, mas também descansar nossa alma porque somos alvos da Graça de Deus manifesta em Cristo. Nosso sábado é o domingo porque é um dia de vitória - foi nesse dia em que Aquele que se fez pecado em nosso lugar venceu a morte, ressurgindo para nos garantir perdão e vida eterna como presente imerecido e recebido com temor a Deus, reverência, quebrantamento, júbilo e coração agradecido. FELIZ PÁSCOA! Maranata, Vem Senhor Jesus!

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