terça-feira, 1 de abril de 2008

Crônica: O dia em que faltei ao Culto

Era domingo, 17 horas. Eu acabara de acordar do cochilo do almoço que, normalmente, é mais tarde no domingo. Com o corpo ainda cansado, a cara amarrotada e o desejo de permanecer deitado, apenas fitei o teto do meu quarto.

Comecei a reparar todas as ondulações de reboco que ficam disfarçadas com a pintura. Ao centro do teto, um ventilador com uma de suas hélices levemente empenada – mas tanto faz, ele está estragado e não é mesmo ligado.
Entre um giro e outro na cama, relutando comigo mesmo para levantar, de repente – ao ouvir a voz da minha mãe convocando todos para o café que acabara de ficar pronto – num salto, me pus de pé e me dirigi ao banheiro.
Ah, o frescor da água fria molhando o rosto despertou-me de vez daquela preguicinha que ainda me acompanha no arrastar do chinelo desde o trajeto do quarto até o banheiro.
Era um domingo como outro qualquer, sem muitas mudanças. Em toda essa trajetória já haviam se passado 30 minutos. Enfim, deparei-me com um gostoso cafezinho mineiro, acompanhado de um pãozinho francês recheado de margarina – que insistentemente em Minas Gerais, todos chamam de manteiga.

Toda a família estava ali conversando despreocupadamente, tomando um cafezinho e comendo os pães e os biscoitinhos. Era uma tarde perfeita em família.
Já eram 18 horas quando a primeira pessoa terminou seu café e dirigiu-se ao quintal.
Aos poucos todos se retiraram da cozinha e já eram 18:20.

Coloquei meus cotovelos sobre a mesa e as minhas mãos apoiavam o meu rosto. Fiquei contemplando o nada durante alguns instantes até que fui interrompido do meu ócio pela voz da minha irmã:
- Você não vai à Igreja?
Fitei meu olhar em sua direção e apenas respondi:
- Não, hoje estou com um pouco de preguiça. Não fará muita diferença somente se eu faltar.
Ela então olhou ao redor e percebeu que todos estavam envolvidos consigo mesmos em seus momentos de preguiça. Uns assistam a televisão, outros estavam no quintal sem fazer nada e eu e minha irmã estávamos confabulando a nossa falta naquele dia. Isso mesmo, ela também decidiu não ir, assim como todo o resto da família.
Não seria tão prejudicial às atividades da igreja. Afinal, seriam apenas 5 pessoas a menos. A igreja é bem freqüentada e tem uma presença um tanto satisfatória em um domingo a noite.
Pois bem, tudo decidido – ninguém ali de casa iria na igreja naquela noite de domingo – e já faltavam 5 minutos para começar o culto que sempre se inicia às 19 em ponto. Se bem que hoje o pastor não estará presente pois pediu dispensa deste domingo por ter trabalhado um dia de sua folga e, como fazia quase um ano que não via seus pais que são de outra cidade, resolveu reservar aquele domingo para ficar entre família – aproveitando que vieram lhe visitar. Compreensivo e justo.
Tá. Contando comigo,minha família, o pastor, sua esposa e seus 2 filhos, são 9 pessoas. Aliás, 12 pessoas, pois a dona Jandira, o senhor Manoel e o Luquinhas etão de férias. Não, minto. São 17 pessoas pois 5 pessoas da nossa comunidade eclesiástica estão enfermas e impossibilitadas de ir à igreja.
Mas mesmo assim. Nossa igreja tem uma presença boa nos domingos a noite.
Pronto! Já são 19 horas e 15 minutos. A essa altura do campeonato, conforme o padrão de culto lá da igreja, devem estar cantando o segundo ou terceiro cântico de louvor. Mesmo que eu quisesse ir não ficaria legal chegar atrasado.
Os minutos começaram a se passar. De repente ouço um convite mais do que especial do meu pai:
- Pessoal, já que não fomos à igreja hoje, que tal irmos naquela sorveteria aproveitar um final de noite em família?
Claro que todos toparam sem exitação. E fomos para o carro entre risos e uma clara demonstração de felicidade por estarmos todos juntos.
Ao chegarmos na rua da sorveteria - que é enorme - notamos que o movimento estava intenso naquela noite. Eram carros e carros estacionados. Demoramos quase uns 10 minutos para encontrar uma vaga.
Então descemos todos do carro e nos dirigimos para a sorveteria. Mas nos deparamos com uma situação um tanto constrangedora: o presbítero Anselmo estava descendo do carro também, e indo para a sorveteria. Todos, com aquela cara de vergonha, se cumprimentaram e o Anselmo disse:
- Noite quente não é irmão? Resolvi retirar um tempo com a família e vir na sorveteria hoje.
Ufa! Foi um alívio geral para as duas famílias. Afinal, estávamos faltando ao culto aquela noite e, naquele exato momento, era o mais ou menos o horário em que pregação tinha o costume de começar.
Mas a surpresa foi ainda maior ao chegar na área externa da sorveteria. Estavam lá o pastor, a esposa, seus filhos e seus pais. Que situação desconcertante. O pior foi que eles nos viram e viraram o rosto. Não sei por quê, era o dia em que ele trocou pela folga dele. Nós é que tínhamos de ficar envergonhados, não eles.
Eu havia ficado logo atrás da minha família enquanto entravam na sorveteria. De repente, eis que o mundo parou. Sério! O mundo parou. Um relâmpago claro, muito claro mesmo brilhou, e todos viram. Então me lembro de ter olhado para todos os lados da sorveteria. Todos estavam lá. Todos os membros da igreja estavam lá. Isso mesmo, todos. Não sei o que aconteceu, mas consegui perceber que todos estavam lá.
Naquele domingo - uns por preguiça, outros por achar a igreja errada demais, outros por estar cansados das atividades eclesiásticas, outros porque queriam ter pelo menos um domingo em família, outros porque foram convidados a ir para a sorveteria ao invés da igreja, alguns por achar a sorveteria uma ótima estratégia de evangelismo, outros porque para eles tanto faz – todos resolveram faltar ao culto, certos de que sua presença não faria falta.
O pessoal do louvor atento ouvia os arranjos da banda pop do momento. O pastor continuava envergonhado, porém encantado com a visita de seus pais. As senhoras e os senhores debatiam problemas de seus filhos e alguns até fofocavam. Os jovens e adolescentes tentavam ver quem seria de quem naquela noite.
Quando houve o relâmpago porém, todos ficaram mudos. Todos foram transportados para a porta da igrejinha. Ela estava fechada. Nenhum membro aparecera. Somente 5 visitantes que decidiram ir lá aquela noite, pois queriam conhecer melhor o Jesus que ouviram falar na televisão.
Então Ele veio. Os céus se rasgaram e Ele veio. Cheio de glória, poder e majestade. E nós vimos um povo vestido de branco subindo com Ele. Nós chorávamos muito porque entendemos que não éramos do aprisco. Que nossas escolhas tinham mais a ver com nossos desejos egoístas do que com o Reino dEle.E em coro dissemos: Ele é justo!
- Café pessoal! O café está pronto: convidou minha mãe às 17 horas e 10 minutos.
Que pesadelo! Agora sim eu despertei do meu sono, corri para o café e convenci todos a reaver suas prioridades e honrar ao rei dos Reis. Começando por ser agradecido por poder cultuá-lo em família e com a família de Deus.

E então pessoal? Vamos à igreja hoje?

Um comentário:

Vanessa disse...

Ufa!!! Escapamos por pouco em galera? Ainda bem que a gente so vai pra sorveteria depois do culto!!!.
O problema é quando o nosso corpo vai ao culto e a mente só fica na sorveteria!
Fica ai um recadinho de Deus pro nosso coração!!!
Bjs!